domingo, 19 de junho de 2011

De uma Palhaça a um Bufão

Quem dera esse riso sem pressa aparecer. Me faça feliz, vem ele dizer. Diz nada e me beija sem pedir, achando realmente que não sabe o que fiz. Eu te conquistei e nem pensei bem do porque também. Você com esse sorriso escrachado. Mal arrumado... Desleixado. Mas ainda sim um palhaço da minha vida de poucos atos. Talvez porque me faça sorrir quando penso em você sem mim. Ou de como seu nariz é frio quando toca meu pescoço, meu rosto. E seus bolsos sempre cheios de coisas minhas: celular, carteira, uma vez até uma calcinha. E não é que não ame seu amor por mim... Só não quero que pense assim: que amo você e esse é o fim. No mínimo mais uns atos, que você chore e tudo mais... Que eu chore e tudo mais. Depois quem sabe rir e pensar sobre o que vem a seguir, sabe, depois das lágrimas.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Bufão do Publico Morto

Cutucou o rosto paralisado do rei. O sorriso inalterado. Os dedos do bobo massageando as expressões felizes da corte. No seu próprio rosto a solidão do palácio. O vazio nos olhos. Todo palco abandonado. Que triste, pensou ele, minha cena perdida nos sorrisos de sempre e para sempre. Até quando viveria? Não sabia nem quanto tempo passara desde a última gargalhada de verdade. Agora ele chorava e ria sozinho. A maquiagem borrada. O sorriso como uma taça virada. Os pés cansados. As roupas gastas. Até quando, gritou ele, e depois dormiu...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Um palhaço perdido e sem palco

Um palhaço sobe no palco. Ele tem a barba comprida. Grita: Viva a vida! Estende os braços. Finos. Ossudos. Mas seu rosto é susto. A plateia sumiu. O povo ninguém viu. E ninguém era ninguém. Lá se foi o sorriso. O riso alegre do palhaço barbudo. Certo sobre tudo. Ou sobre como seria o mundo de um espetáculo só. Agora era escuro. Um único foco de luz sobre aquele rosto peludo. O palhaço ficou mudo. Sem risada. Arco de gargalhada. Piadas. Era uma pista do que tinha sido. Vivente e convencido. O palhaço decidiu o suicídio. Fez uma mimica cá. Outra acolá. Voilà! Tinha uma corda nas mãos. Trançou um nó. Firmou os pés num buraco no chão. O palco como um túmulo. Morreu-se o palhaço mudo. Pensou assim. E quando já se debatia. Os pesinhos de grandes sapatos tremendo. A plateia aplaudia. Ria. A alegria fora sua cova fria. Morreu-se o palhaço sem alegria, pensavam eles, mas deitado na sua cova sorria o bom espetáculo.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Bufão do Rei sem Rosto

Pequenos contos forravam as paredes do quarto. Do palhaço ao menestrel, bufões e reis... Um fragmento de poema sobre os amores dedicados as coxas dela. Um verso solto sobre o sorriso do homem de chapéu. Deitado nesse quanto o autor desfigurado sorria sob uma máscara. Que há, dizia ele, além de mim e minhas deformidades, que causem mais horror nessa cena triste? E nenhuma resposta se dava. Quem sabe que sorriso havia por de traz da máscara... Grande brancura ou caries vivas... Um príncipe ou um plebeu... Então levantou as mãos e escreveu no ar: minhas palavras, pássaros a migrar, meus contos, balas sem direção, minha voz canção tremula e sem guerra, meu corpo... ah, meu corpo, esse se dá morto e por vencido - e dormiu.